Memento

No momento que escrevo isto as abas de um papel arrancado voam por causa do ventilador e penso que é um inseto que se aproxima de mim; sem camisa sinto como se um monte desses bichinhos, voadores ou não, me tocam e me pinicam a todo momento e lugar. É o calor? Não sei: lá fora tem uma barata e eu vi sombras, juro, sombras de coisas vindo no meu pé mas depois concluí que foram vultos de mim mesmo, enfim, minha própria sombra me assustando… É madrugada. Acho que vou sonhar com insetos, baratas e monstrinhos voadores esta noite, assim como noutro dia. Vim só para dizer que estou vivo; que postei uma crônica recentemente no blog do meu amigo no Mangatom, e as crônicas estão seguindo firme e forte, alguns sábados não posto porque — sei lá, porém mantenho o ritmo semanal. E, já que estou aqui, também direi que estou com uma novela a vista. Sim. Final do ano passado, exatamente no começo de dezembro iniciei a escritura de uma novela, ou noveleta, não sei nem como definir pois por certo logo que publicar haverá quem diga que não se trate nada mais que um conto longo e dividido em capítulos. Ainda estou matutando em como vou apresentá-la: quero que seja algo de graça acessível a todos, até a quem não tem leitor eletrônico, etc, etc. Qual o tema? Não posso e nem quero dizer. É segredo. Posso somente alimentar a imaginação revelando que o tema centra numa única palavra das 255 deste parágrafo.

O coração não trai

Tenho a mais absoluta certeza de que só vão te fazer duas perguntas. A maior parte das suas estrelas estava brilhando? Você estava escrevendo direto do coração? Se você ao menos soubesse como te seria fácil responder sim às duas perguntas! Basta que se lembre, ao sentar para escrever, de que você foi um leitor muito antes de se tornar um escritor. Simplesmente tome consciência disso, sente-se bem quieto por alguns instantes e pergunte a você mesmo, como leitor, qual a obra literária que o Buddy Glass mais gostaria de ler caso seu coração pudesse escolher. O próximo passo é terrível, mas tão simples que eu mal posso acreditar no que vou dizer. Trate apenas, desavergonhadamente, de escrevê-la você próprio. Não vou nem sublinhar o troço, é importante demais para isso. Tenha a coragem de fazê-lo, Buddy! Confie no seu coração. Você é um artesão de qualidade, o coração nunca irá te trair.

— J. D. Salinger ; Seymour, uma Apresentação

Não faz diferença

—– Postado originalmente no Polpa Gazeta, 20/05/2015

— Oi bebê, tudo bom?

Na volta Júlio ligou para a mulher e ela atendeu e tais palavras lhe lançaram uma miscelânea de sensações, sobretudo dúvida e medo, preocupação e tensão e, por último, incerteza; todo o abstracionismo de que tem-se quem sente ou está conhecendo paixão. Entretanto, fazia três anos que os dois enamoravam-se e recentemente – exatamente um ano e meio – ao conseguir o novo emprego, dia a dia Júlio liga para a esposa-namorada a fim de saber como esta está; preocupação puramente vã, pois, conhecendo-a saberia que sempre está em casa porque nunca sai.

Nunca sai: não tem muitas amigas – e nem amigos – nem para onde ir. A certeza, por certo decerto, é de que toda vez que ligar nesse horário ela estará em casa, segura, talvez sã e queira Deus salva. Ainda assim, isto e aquilo o pobre Júlio…

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Crônicas crônicas

Um ou dois meses atrás escrevi um texto reclamando da minha falta de comprometimento ao “profissionalismo” a respeito do ato de escrever. E quase que nessa mesma quantidade de tempo venho escrevendo crônicas semanais no blog/site de um amigo meu. Penso até que já postei um número considerável para compilar num livreto, mas não é o foco.

Além disso esse amigo colabora com imagens ilustrativas da internet, o que, como cheguei a dizê-lo, “É uma ótima forma para saber a ideia que ele e os leitores têm dos textos.”

Excerto de uma preferida minha:

Já li vários livros de ficção e, recentemente, tratei de me aventurar com livros de não-ficção também. De repente noto que pareço gostar mais destes do que daqueles. Às vezes me questiono, por que ler ficção, se não nos diz nada sobre o mundo concreto e a diversão que esperamos é totalmente incerta? Talvez se esse 1808 fosse uma ficção, não incitaria o mesmo devaneio que tive onze horas da noite num desses dias aí da semana passada. Todos na casa dormindo e eu na sala, sob a escuridão, com a luz do e-reader fuzilando meu rosto. Tinha que ver: falava sozinho, argumentando e contra-argumentando meus próprios argumentos como se fosse dois em um. De que modo uma única pessoa como Napoleão foi importantíssima para a história ocidental? O homem por si só é um grande evento histórico! Como se não bastasse, ele foi fruto (ou, pelo menos, os atos dele e as suas consequências) da Revolução Francesa. Esta que, por sua vez, é o fato histórico que mais marcou o mundo, dividiu a história da humanidade em duas eras. Até o início do século XVII só existia uma maneira de governar um povo. Com essa revolução, surgiu outra forma de governar e organizar a sociedade, literalmente do nada. E não para por aí: esses eventos influenciaram filósofos e pensadores que deram nascimento a conceitos como capitalismo, socialismo, direita e esquerda. Ideias originadas a cerca de dois ou três séculos atrás e que até hoje sofremos seus impactos.

Cliquem e leiam:

Memória Anacrônica
Deus, revoluções, Napoleão, 1808, física quântica, viagem no tempo, dinheiro, e-reader, texto e você
Diagnóstico
Vilã da história ou o que embeleza a vida?
Tudo é um
Futuro do presente
Motio-boy
Escrever (e outras coisas) hoje
O mundo na juventude
Ter de ser o outro
Dentro do teatro a céu aberto

Eu, Carro

Quando pus a água no fogo, relaxei meu controle sobre a mente dela. Queria ver como era o seu natural para poder avaliar o quanto eu a estaria influenciando. “Bonita a vista daqui da sua casa.” Vi que estava sendo sincera, mas, olhando através de seus olhos, sabia que o que ela estava apreciando mesmo era o meu carro. Ela sinceramente queria dar uma volta de carro. Eu observava com curiosidade o quanto a vontade dela de transar comigo estava imbricada com a vontade de andar no carro. Vi que ela achava que o carro era bonito e que eu tinha cara de buldogue louro; mesmo assim, o tesão era como se eu fosse bonito e possante tal como o carro, tal como se o carro e eu fôssemos um mesmo ser.

— André Rangel Rios; Dentro do Teatro de Marionetes

O Louco e O Mentiroso

— Conto enviado para a revista Pulp Fiction (Não selecionado)

Você alguma vez já olhou para o céu e observou Marte? Eu estive lá, mas não é tão legal como comentam. “Deus da Guerra”, quem disse isso? O vermelho das pedras? Sim, é bonito, ótimo… Nada como um deserto terrestre. A caveira olhando para o ponto azul no espaço foi a única coisa interessante que encontrei lá, num dia solar. Conversei com ela nesse sonho. Ela falou quão bonito é, do quanto sente saudade de seus companheiros. Eu disse que sim, é muito bonito, concordando com ela, inerte, assentado na superfície do Deus da Guerra, vendo o escuro — minto… Olhando o ponto azul.

— Mas vem cá, como é que você falou em Marte, se o oxigênio lá é parco… se não me engano…  Continue lendo